quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Pesquisa revela que família não admite culpa por vício de filho

Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) traça pela primeira vez um perfil da família do dependente de drogas no Brasil. O trabalho, baseado na entrevista de 500 pessoas que procuram grupos de ajuda Amor Exigente, revela que, embora sejam os primeiros a descobrir o vício, familiares responsabilizam fatores externos pelo problema.
“Há um processo longo até a descoberta. Quando isso ocorre, boa parte dos familiares avalia que o uso de drogas ilícitas é resultado da influência de más companhias ou da falha de autoestima do paciente”, afirma a coordenadora do trabalho, Maria de Fátima Rato Padin.

De acordo com o estudo, em 68% dos casos, a descoberta foi feita por um familiar que percebeu mudanças de comportamento e, na grande maioria, por mulheres. “São companheiras dos usuários ou mães”, diz a pesquisadora. Muitas delas ficam deprimidas. “Hoje tenho consciência de que assumia parte da culpa. E, principalmente, assumia a responsabilidade de resolvê-lo”, conta a jornalista Cleide Canduro, de 53 anos. Mãe de quatro filhos, ela descobriu, há oito anos, que três haviam usado entorpecentes.

“Dois apenas tiveram contato. Mas um deles usava de forma abusiva, afetando estudos, o rendimento nos esportes, a convivência.” Ele associava maconha e álcool. E uma das grandes surpresas do trabalho é o fato de a maconha ser a droga mais frequente e de maior preferência dos usuários, de acordo com a percepção da família. “Há sempre a ideia de que maconha traz poucos prejuízos. Mas, para familiares, isso está longe de ser verdade”, afirma Maria de Fátima.

O trabalho retrata o difícil caminho atrás de atendimento. “As famílias estão muito desamparadas e, principalmente, não encontram nível de informação adequado”, diz a pesquisadora. Segundo o estudo, 61,6% desconhecem, por exemplo, os serviços dos Centros de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (Caps). E, antes de recorrer aos grupos de ajuda mútua, entrevistados já haviam passado por uma série de tentativas: desde internação dos pacientes, atendimento psicológico e psiquiátrico até procura de grupos religiosos.


TRATAMENTO

Cleide, por exemplo, recorreu a várias alternativas antes de procurar um grupo de ajuda. Somente depois de um ano nesse grupo é que veio a decisão de internar seu filho. “Demorei a admitir que ele tinha problemas com drogas. Demorei a tomar uma atitude mais firme”, completa. Hoje ela percebe que isso não é incomum. “As notas dos filhos pioram, eles chegam em casa bêbados. Mas é sempre mais confortável aceitar a versão deles: de que professores são ruins, de que a bebedeira foi episódio passageiro ou resultado da combinação de álcool com estômago vazio”, diz Cleide.

Para Maria de Fátima, uma das principais conclusões de sua pesquisa é a necessidade de ampliar o acesso a informações sobre serviços existentes e, sobretudo, ampliar a oferta de tratamento ao dependente.


Fonte:O Estado de S. Paulo/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)

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